O que se passa?

quinta-feira, 31 de julho de 2014

 Andei a fugir ao termo que talvez melhor descreva a minha situação, andei a evitar quem mo apontava e quem mo clarificava. Fugi sempre que pude aos confrontos mais acesos acerca do que isto poderia ser...
 Não me considero doente, nem anoréctica, isso era apenas o rótulo que toda a gente que não estava perto me dava. Porém, tenho plena consciência de que não o sou. Nunca tive necessidade de tirar do organismo aquilo que ingeria, nunca reduzi o prato a uma migalha, mas fiz coisas que estiveram lá perto.
 Pensava nas calorias de tudo o que ingeria, optava por produtos que me davam menos energia, olhava para todos os rótulos e analisava todos os ingredientes cuidadosamente. Pessoas mesmo exteriores ao problema podiam chamar-lhe «cuidado para ingerir comida quase não processada». O que saltou mais à vista dos meus entes foi o inocente facto de eu adorar comer antes de começar a ter alguma paranóia. Anteriormente, eu apreciava a comida e tinha curiosidade pelos alimentos cozinhados e diferentes. Mais recentemente, ganhei medo a tudo o que era mais produzido. Só queria ser normal e ter aquele desejo de comer porcarias, contudo se ingeria um quadradinho de chocolate começava a chorar e a entrar em parafuso. Sempre fui apoiante de uma alimentação equilibrada, mas durante algum tempo esqueci-me que equilíbrio significava comer de tudo nas doses certas. Deixei de fazer as doses certas, retirei alimentos da minha vida abruptamente, não querendo simplesmente que me intoxicassem o organismo. Quando passava o fim de semana fora ou não dormia em casa ficava nervosa e pensava e repensava mil e uma vezes na comida que tinha ingerido e como poderia eliminá-la o mais rapidamente do meu corpo. Arranjava todo o tipo de conversa inteligente e perspicaz para convencer as pessoas a dar-me de comer certas coisas, sem darem conta de nada. Depois, quando chegava a casa, ia a correr para o ginásio, tentando fazer as aulas mais intensas.

 Fiquei sem energia, o meu corpo chegou a um ponto onde se arrastava na rua e dava o máximo dentro das paredes do ginásio. Tirei o leite da minha vida, não comi pão durante meses, desintoxicava o meu organismo todos os dias. A minha mãe quase chorou: «olhei para ti e só vi um monte de ossos, onde está a minha filha cujos olhos brilham quando vê algo completamente fora do normal?».
 O desespero da minha mãe tornou-se o meu, mas continuava sem ter a noção, continuei a emagrecer, mas as pessoas, através da minha conversa, pensavam que eu fazia o contrário. Eu digo sempre: «depois de saber como emagrecer é sempre a andar para a frente». O meu pai não é uma pessoa fácil e fez-me sofrer muito psicologicamente, tentei afastar esse problema um pouco mas não posso tirar o meu pai da minha vida. Passei uma semana com ele e emagreci demais. Depois foi sempre a perder.
 «Filha, estou a ficar desesperada, a tua irmã preocupada, aceita a minha ajuda, percebe que estás mal!» É complicado entender, mas tentei, reflecti, chorei, esperneei, e finalmente percebi.
 Não quero voltar a ficar gordinha, mas quero recuperar a minha força, por isso agora estou a tentar recuperar, antes que a minha vida fique completamente estragada.
 É difícil enfrentar perguntas sobre a minha condição todos os dias, mas as pessoas não o fazem por mal e eu só o tenho que tentar entender, as pessoas querem o meu bem.
 Continuo bonita e tenho consciência disso, mas agora vou trabalhar para não chegar ao limiar, porque quero continuar a ser a rapariga fantástica que toda a gente descrever e quero conseguir usufruir da minha inteligência.
 É isso, que a recuperação comece, sempre ao som dos Pearl Jam.
 E agora vou enfardar um pão com compota (algo de que sinto saudades e falta)!